E eis a questão fatal: o que é o mais importante na escrita de uma boa história?
Saber usar as palavras?
Saber narrar bem?
Saber construir tramas envolventes?
Saber criar bons personagens?
Bom, tudo isso é importante. Mas, entre todos, penso que a construção do personagem é fundamental, já que é ele quem vai interferir em todos os outros itens da escrita. Afinal, é através dos olhos do personagem que os leitores acompanharão toda a história. (E, antes de levantar aqui a discussão de O PERSONAGEM e A PERSONAGEM, já vou avisando que escolhi usar o modo mais prático para simplificar, já que a regra gramatical permite os dois gêneros para a palavra e isso me ajuda a não causar confusão na hora de explicar enredos xD).
Podemos até conceber enredos brilhantes, porém, se não tivermos personagens que instiguem a maioria das pessoas, elas pouco ligarão para a estória que estamos contando ou tentando contar.
James McSill
Os leitores só irão aonde o personagem for, só sentirão o que o personagem sentir, isso é fato. Aproveitando que Marley&Eu já passou várias vezes na TV e até a minha mãe assistiu (e portanto não será spoiler nem para ela): o que emociona é a morte do cachorro ou o seu dono falando do quão importante o Marley foi para ele a para a família?

Como já disse a Tsubaki-oneesan (em Hana Yori Dango, ecoando outro alguém), só um coração pode tocar outro coração. Se o personagem não for bem construído a ponto de ser encantador para o leitor, a história será simplesmente lida com os olhos e não com o coração. E isso vale para todos os personagens, seja o principal, o secundário ou o aleatório!

(clique na imagem xD)
Agora, quando eu digo encantador, não pense em algo como ‘adorável’. Pensar no personagem como adorável será consequência (vide Shrek). Encantador é no sentido realmente de encantar, não importando quem seja. Você simplesmente adora aquele personagem por simplesmente ser quem ele é. Vilões! Vilões bem construídos e bem usados na história são encantadores, ainda que façam o mal.
E, falando em vilões…

Fazemos parte de uma geração de histórias em que existe a dualidade do bem e do mal, tanto nos mocinhos quanto nos vilões. Então temos que fugir do simplismo de pensar que mocinhos devem ser heróis corajosos que salvam as pessoas e que vilões devem ter o objetivo de destruir. Não sei, mas para mim isso de dualidade sempre foi tão claro que é difícil imaginar que alguém ainda não pense dessa forma (apesar do andar do mundo que vivemos hoje). Mas, julgando que tenha alguém aqui lendo que não concorde por não ter fundamentos fortes sobre o que é bem e mal, vou deixar uma dica de filme que ajuda bastante a pensar na questão (se nunca assistiu, assista! | se já assistiu, que tal rever pensando sobre as dualidades?).
Tá, mas voltando para a questão principal: o personagem é quem conduz a história (ponto). Sem ele, a história não anda, não se desenvolve. Se ele não dá o primeiro passo para sair do Condado, ele nunca descobrirá as maravilhas e perigos que existem na Terra-Média e nunca enfrentará um dragão. Se ele não dar um passo além do guarda-roupa/ se ele não atravessar correndo a parede de uma plataforma na King Cross/ se ele não pensar em coisas felizes que o faça voar/ e assim por diante xD
Lhaisa, fazer aquelas listas de personagens, com nome, idade, gênero, características físicas, hobbies, habilidades, peso, tipo sanguíneo, se gosta de Coca-cola ou Pepsi, Halls de morango ou o preto-não-importa-o-sabor, ajuda?
Sim, ajuda. Mas, com o tempo você vai perceber que isso é mais ou menos como quando estamos no primário e nos empolgamos fazendo margens bonitas nos cadernos novos, e depois descobrimos que dificilmente iremos respeitar os limites e desistimos; ou decoramos tão bem onde ficam essas margens que não precisamos mais marcá-las, sabemos por instinto. Criamos os personagens, mas com o tempo eles passam a andar sozinhos. Com o tempo você vai saber tão bem como o Fulano irá reagir em determinada situação, que mudará pontos das tramas que você já tinha estabelecido para ficar condizente com o que Fulano faria. Com o tempo, o próprio personagem vai saltar na sua mente e dizer Acho que seria melhor assim. Aquela folha em branco margeada em seu caderno logo estará repleta de conteúdo e se tornará algo totalmente diferente do que você imaginou que seria quando ainda era um espaço vazio. Portanto, não se prenda ao que você determina para o seu personagem, não crie algemas que limitem até onde ele pode ir. Estruture a base, mas deixe-o livre o suficiente para que ele cresça, aprenda com os seus erros e acertos, e se desenvolva. Você irá crescer junto com ele xD
E, falando em tudo isso, não podemos fugir de falar sobre A Jornada do Herói. É um conteúdo tão base da base para se escrever ficção que todo mundo que pensa em histórias já deve ter pelo menos ouvido falar xD Hoje muito se discute se esse sistema é realmente válido, que na verdade existem outros sistemas, ou que não existe sistema nenhum. Porém, entretanto, contudo, mesmo que para discordar ou criticar, precisamos conhecer sobre. Sem contar que é sim algo que pode ajudar um escritor iniciante a desenvolver o rumo do seu personagem. Então aqui vai um vídeo básico explicando essa teoria.
Resuminho básico da lição de hoje sobre o que é fantasia: quando pensamos em qualquer tipo de mídia de entretenimento, seja qual for, é difícil pensarmos nas histórias sem os personagens que a conduziram. Então não adianta ter um universo fantástico primoroso e personagens sem graça, arroz com feijão, padrõezinhos do RPG.
Quer ver um exemplo de como os personagens fazem a diferença? Assista esse vídeo que é o resumo de um filme de animação, onde mesmo quem conhece um pouco de anime pode não entender o universo apresentado, e ao final julgue seus sentimentos em relação a história xD
Um exercício para encerrar? Pegue 5 histórias que você conhece e considera acima da média e tente pensar nelas sem o personagem principal.
Pessoal, próximo post sairemos dessa parte teórica sobre os elementos que compõem uma narração ficcional e iremos finalmente para o gênero fantástico mesmo. Então, nos vemos no próximo o/
