Afinal, o que é fantástico? – Parte 04

Afinal, o que é fantástico? – Parte 04

E, depois de toda essa introdução sobre escrever (e escrever fantasia), chegamos ao assunto principal: o fantástico.

Ah, fantástico é tudo o que tem fantasia, Lhaisa!
É, basicamente.
Mas, me diz uma coisa: aquelas histórias “baseadas em fatos reais”, também não são fantasia?
Afinal, se só alguns fatos são reais, os outros são quê? Ficção!

Então, tudo o que é fantástico é ficção?
Basicamente também sim.
Mas, quando falamos fantasia/ficção, estamos rotulando uma caixa repleta de potes de coisas diferentes, com características próprias. É sobre essas coisas diferentes que iremos falar em todos os próximos posts. E, ao final deles, vocês poderão ter uma visão mais ampla e detalhada quando o assunto foi Literatura Fantástica/ Literatura de fantasia/ Literatura de ficção fantástica/ várias outras denominações que estão surgindo.

Antes, um adendo sobre romance.

Não, não o romance romântico! xD

Lembram da matéria de literatura da escola, em que aprendemos que existe vários tipos de textos? Poesia, prosa, narrativa, dissertação… Como não é algo que todo mundo leva para o dia-a-dia depois, esquecemos que romance, no geral, é um termo usado para se referir às obras literárias no geral. Se você procurar em um dicionário, já dá para se ter uma noção de como o termos é abrangente. Dei um ctrlC+ctrlV no Houaiss aqui:

adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino
1     Rubrica: linguística.
m.q. românico (‘neolatino’ e ‘romanço’)
2     Rubrica: literatura.
relativo a ou poesia trovadoresca provençal, ou seu estilo próprio
3     Rubrica: literatura.
relativo a ou estilo próprio dessa poesia

n substantivo masculino
4     Rubrica: literatura.
obra narrativa escrita em língua românica, em prosa ou em verso
5     Rubrica: literatura.
m.q. romança (‘poema’)
6     Rubrica: literatura.
prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social etc.
7     Rubrica: literatura. Regionalismo: Nordeste do Brasil.
composição poética narrativa do romanceiro popular, em particular a de tema amoroso
8     Rubrica: música.
canto com poesia em versos octossílabos, de caráter épico e narrativo
9     Derivação: por extensão de sentido.
descrição marcada pelo exagero ou pela fantasia
10   fato real que, por ser muito complicado, parece inacreditável
11   Regionalismo: Brasil.
caso de amor, aventura sentimental; namoro

Podem continuar chamando os livros de romance romântico de romance, sem problemas. Só não se esqueçam que um livro de investigação, um de terror e um de fantasia também podem ser chamados de romance. Ex: Crônicas de Gelo e Fogo, um romance medieval fantástico.

Agora, a fantasia.

Trata-se de um gênero literário que nas últimas décadas invadiu o cinema e dominou a cultura pop do século XXI, alavancando junto consigo outros elementos que também englobam a fantasia, como os quadrinhos e jogos de videogame. O nome que está sendo adotado para designar essa nova fase varia, mas vamos no padrão/popular que é o Literatura Fantástica Moderna. Por que o ‘moderna’? Porque o termo ‘Literatura Fantástica’ já foi usado para determinar uma escola literária. Aqui no Brasil ela não chegou a ter tanto ênfase, por causa da Semana de Arte Moderna (que nos fez parar de copiar o que vinha de fora e dar mais atenção para o que era produzido em nosso país). Mas, um exemplo que podemos citar muito próximo a isso seria o próprio Machado de Assis com Memórias Póstumas de Brás Cubas (Gente, é um morto contando a vida dele! Um zumbi escritor!). Na América do Sul houve o Realismo Mágico/Fantástico/Maravilhoso. Não vou falar sobre ou esse post ficará gigante, mas se alguém quiser pesquisar o assunto (bem interessante) a obra de exemplo seria Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez.

Agora, essa Literatura Fantástica Moderna é muito mais próxima do entretenimento do que da literatura clássica. Ela não quer conversar com os intelectuais ou ganhar prêmios Nobel. Ela quer divertir (ponto). Quer lucrar com isso? Bom, alguns conseguem, de propósito ou não! xD Enfim, por ser um tipo de literatura muito mais comercial, ela sempre foi desconsiderada pelos estudiosos e a comunidade literária/de letrados. Hoje em dia, com o poder que ela demonstrou ter em arrebanhar fãs-consumidores, não pode ser ignorada. Sim, pode ser motivo de desprezo para quem não a considera exemplo de texto de qualidade estética e outros critérios de avaliações acadêmicas. Mas, é inegável que ela conquistou um espaço próprio e está ditando o mercado editorial no mundo.

Já conseguem contextualizar o ‘fantástico’ inserido na nossa sociedade atual e a sua relação com a Literatura? Se não, comece a ler novamente, prestando muita atenção. Se sim, siga adiante com o post o/

O termo ‘fantástico’, como foi estudado ao longo das décadas do século passado, define narrativas ficcionais que possuem elementos não explicados pela lógica da nossa realidade. Ele agrupa três subgêneros: ficção científica, fantasia e o horror (ou terror). Tanto no cinema quanto na literatura o gênero fantástico possui as mesmas características, já que estão no mesmo caminho de serem produções comerciais, voltadas para o entretenimento.

“Há um fenômeno estranho que se pode explicar de duas maneiras, por meio de causas de tipo natural e sobrenatural. A possibilidade de se hesitar entre os dois criou o efeito fantástico.”
(TODOROV, 1968, p. 31)

Muuuuuito antigamente, quando não existia celulares, internet e televisão, as pessoas não sabiam muito bem o que encontrar além do que lhes era conhecido (mesmo os estudiosos). Afinal, o que será que existe além desse mundo de água salgada onde a terra termina? Monstros, provavelmente, todos gigantes e perigosíssimos. Reinos de deuses que não estão a fim de serem bonzinhos com seres inferiores como nós, humanos. E, ainda, não se esqueça de que uma hora esse mar todo acaba e caímos da borda do nosso planeta achatado.

Em séculos passados, tudo isso era encarado como verdade, como real. As pessoas simplesmente acreditavam, tendo provas ou não. Não se pensava além disso, já que o contexto da época não dava muito espaço para pensamentos. Foi só com o surgimento de uma época de esclarecimentos, saindo da Era Medieval, que se começou a trabalhar para entender de verdade o mundo a nossa volta. Essa foi a época do Iluminismo, e a partir daí a fantasia passou a ser de fato conhecida como fantasia. Com o surgimento do realismo, passou-se a separar o que era ‘real’ e ‘fantástico’ na literatura.

Do ponto de vista da estudiosa Selma Rodrigues, podemos classificar os textos entre o que denominamos “o fantástico ou…”:

O mágico: a autora considera essa expressão imprópria para a literatura mesmo estando em muitas obras para designar o que na verdade seria o fantástico.

O maravilhoso: segundo a autora, costuma-se chamar assim a interferência de deuses ou seres sobrenaturais no texto, que pode ser maravilhoso pagão e maravilhoso cristão. A diferença em relação ao fantástico seria, portanto, o fato de o maravilhoso fazer com que o leitor se insira num universo de fantasia, como dos contos de fadas, em que é possível haver fadas madrinhas realizando desejos, ratinhos falantes, bruxa malvada com poderes e maçãs envenenadas, donzelas adormecendo por cem anos, etc. Ou num nível menos “viajado”, o maravilhoso poderia tratar de seres humanos comuns, convivendo com seres sobrenaturais como fantasmas, almas penadas, sem que estes sejam questionados na narrativa. Ou seja, os personagens aceitam esses seres que também são aceitos pelos leitores.

O alegórico: em síntese, trata-se de uma proposição de duplo sentido, ou seja, dizer alguma coisa fazendo relação com outra  coisa. É simples, vejamos o caso das fábulas que contam histórias de bichinhos falantes, mas têm, na maioria das vezes, um fundo moralizante e se referem às ações e gestos humanos. Mas a autora faz menção ao caso de alegorias que não tenham um significado único, permitindo outras interpretações do leitor, e afirma que, nesse caso, o elemento fantástico ou maravilhoso não se desfaz pela chave alegórica. (caso das distopias)

Ufa, muito conteúdo, não é? Por isso, sem tarefinha, só um pedido:
Mas, sério, pesquisem mais o assunto, principalmente se você gosta de fantasia ou é escritor da área. Mesmo que a intenção não seja sair bradando para todos os cantos do mundo que você entende sobre, ter base de conhecimento daquilo que gostamos nos faz sermos mais confiantes no que gostamos. E, também, nos tira daquele limbo de acreditar que uma hora o mar chega na borda do planeta e cai no universo desconhecido! xD

Até o próximo post o/

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